quinta-feira, 22 de outubro de 2009

A literatura e o direito a morte Maurice Blanchot questiona a voz que vem quando se escreve. Voz que se inscreve na pena e pergunta – impondo àquele que escreve na sua escrita a questão: Com que direito? O que você poderia falar aqui?. Para Blanchot o começo dessas questões é o começo da escritura, é o começo de qualquer possibilidade de literatura. E não há, para o escritor, contato mais aterrorizante do que esse derradeiro confronto com o nada. Confronto que não acaba no escrito mas que se impõe a cada vez com mais força porém com sutileza redobrada fazendo o escritor estar no risco de uma queda maior a medida que dissimula o vazio com o já escrito – pois não há certezas nesse confronto. Se não há certeza nem de um adversário – a impossibilidade de escrever – como será possível sair vitorioso do confronto? É possível ser vitorioso contra nada? Pois quando olhamos já não há mais conflito, já é tarde demais, foi-se, como Eurídice se vai no momento em que Orfeu a busca. A escritura se dissimula como resposta ao nada: estou aqui!, nos diz ela; mas apesar disso deixa-nos com um leve rastro de uma (im)possível ausência que jurávamos ter encarado.

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