domingo, 6 de junho de 2010

9. - Perec e a lembrança


A metonímia talvez seja das três grandes figuras de linguagem a menos requisitada pelo universo literário. Longe de ter a subversão que a ironia traz à linguagem ou a elegância que a metáfora veste qualquer discurso – dentre tantas outras qualidades dessas duas figuras –, a metonímia acaba muitas vezes ficando à margem na hora em que os escritores escolhem seus instrumentos. Se afastam pelo perigo que ela representa. O que a metonímia traz é um movimento muito particular que transforma a linguagem numa grande ligadura para todos os elementos do universo através da recordação.

No romance de Georges Perec A vida: modos de usar a cena em que o pintor Valène, em pé em seu quartinho, observa os esboços e planos de sua magnum opus é não só um dos pontos mais emocionantes do livro mas a grande metonímia para o trabalho que Perec realiza que é por sua vez uma metonímia da história da literatura. Ao pintar a si mesmo pintando todas essas histórias que acontecem no nº 11 da Rue Simon-Crubellier Valène dá voz ao dispositivo que usou para realizar essa grande obra onde se encontra escrito. Não se trata de um livro, como parece inicialmente, que vai simplesmente narrando eventos fictícios que acontecem em um edifício parisiense – isso não seria o bastante para ser literatura.

Como Valène, que não passa de um pintor que não pinta nada de novo, Perec será somente um contador de histórias de segunda mão. Cada uma dessas histórias, às vezes mais ou menos elípticas, nunca foram de sua autoria, mas sim da mão de outros escritores, são histórias que já foram contadas (mais de) uma vez. Exemplo disso é quando um dos moradores do edifício foi, em seu passado, o gerente do circo que tinha como atração o trapezista de Kafka que não podia sair do seu trapézio. Internas como essa abundam o edifício nº 11 da Rue Simon-Crubellier – edifício este que acaba se revelando não um lar, mas uma grande biblioteca.


Perec, como se vê, não parece interessado em contar algo de novo. O que há é apenas um labirinto de Creta – como no conto de Borges –: a literatura expondo a impossibilidade de se fazer o novo, não porque não é possível fazer, ele é e é feito a toda hora, como nesse livro de Perec; mas porque a linguagem não consegue deixar de recordar suas memórias que não atendem a outro nome que não literatura.

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