Não me impressiona nem um pouco que Blanchot tenha sempre se demorado mais em textos marginais. Para um autor tão preocupado com o fora, com o silêncio, o melhor espaço para poder trabalhar sempre será a marginalidade da literatura, aquele lugar onde a ausência da obra não se calou. O que lhe interessa são os pequenos becos sem saída da literatura onde podemos escutar silêncios que dizem aquilo que justamente não se pode dizer, que a obra luta por dissimular para que não traiam seu segredo. Por isso Blanchot recorrerá tanto a autores deslocados, seja por perseguição (Marquês de Sade), pela distância (Jorge Luis Borges*) ou pela desistência (Rimbaud), quanto a autores renomadíssimos – que, no entanto, quando os ler, se aterá à elementos periféricos; às notas (Joubert), aos rascunhos (Henry James) , às cartas (Artaud), aos diários (Gide), aos planos de obras nunca concretizadas (Mallarmé) e às obras inacabadas (Kafka).
Não se pode surpreender, também, que o autor predileto para Blanchot (tendo inclusive um livro dedicado a ele) não seja outro que não o Kafka. O autor marginal por excelência: Tem um diário, ou seja, tomou a via avessa às letras (ou seria um atalho?); das suas obras mais celebradas várias delas são inacabadas (O processo, O castelo, outros tanto contos); há, por fim, o fato de Kafka ter condenado toda a sua obra ao fogo – o mesmo escritor que dizia em seu diário “Sou apenas literatura e não posso nem quero ser outra coisa”. Ter sido um escritor que nunca deveria ter existido, salvo o acidente ter seus desejos contrariados pelo amigo responsável pelo espólio, talvez seja o que mais atraia Blanchot para o texto Kafkiano. – E não há como não observar esse silêncio pairando sobre toda a sua obra, como se ele prevesse desde o início que aquilo que ele falava era perigoso demais para ser escrito, que era trair o segredo, que era ser Orfeu se virando para Eurídice, Orfeu perdendo Eurídice.Blanchot conseguiu enxergar que somente nas margens poderia encontra de onde vinha aquela coisa chamada literatura. Blanchot mais que isso conseguiu enxergar o Kafka, para além de um mero crítico da religiosidade ou do capitalismo burocrático; um Kafka para além do mar de vozes que não param de se juntar num murmúrio irreversível; um Kafka ancorado no abismo do silêncio.
* É importante notar que quando Blanchot fala de Borges em 1958 ele é virtualmente desconhecido na Europa ocidental e nos Estados Unidos, os grandes polos do pensamento contemporâneo. Ele é nessa época um autor latino-americano.

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